Cuidado como estratégia política: o que as lideranças femininas chilenas ensinam sobre organização que vai além do ativismo tradicional
Por décadas, as narrativas sobre mobilização social no Chile privilegiaram figuras masculinas, discursos de confronto e estruturas verticais de poder. Mas nas periferias de Santiago, nos bairros costeiros de Valparaíso e nas comunidades rurais do sul do país, outro tipo de liderança sempre existiu — e hoje, finalmente, começa a receber a atenção que merece.
São mulheres que organizam sem necessariamente ocupar palanques. Que constroem redes sem esperar por cargos formais. Que transformam cozinhas comunitárias em espaços de deliberação política. E que estão, silenciosamente, redesenhando o que significa mobilizar uma comunidade.
O que significa liderar a partir do cuidado
A economista feminista chilena Silvia Federici, amplamente estudada nos círculos ativistas do país, cunhou a ideia de que o trabalho reprodutivo — historicamente atribuído às mulheres — é também trabalho político. No Chile pós-estallido social de 2019, essa ideia saiu dos livros e desceu às ruas.
Organizações como a Red de Ollas Comunes, que floresceu durante a pandemia, mostraram como o ato coletivo de cozinhar pode ser um ato de resistência. Mulheres que coordenavam a distribuição de alimentos em mais de 2.000 pontos em todo o país não estavam apenas alimentando famílias — estavam construindo infraestrutura social, mapeando necessidades, negociando com prefeituras e formando lideranças.
Essa forma de organização, enraizada no cotidiano e nas relações de proximidade, tem um nome: liderança baseada em cuidado. E ela é fundamentalmente diferente dos modelos hierárquicos que dominaram os movimentos sociais do século XX.
Descentralização como método
Um dos aspectos mais marcantes das organizações lideradas por mulheres no Chile contemporâneo é a recusa à centralização do poder. Em vez de figuras únicas de liderança, proliferam estruturas de decisão coletiva, rodízio de papéis e processos deliberativos que valorizam vozes historicamente silenciadas.
A Coordinadora Feminista 8M, por exemplo, que organizou algumas das maiores mobilizações do país nos últimos anos, opera por meio de assembleias descentralizadas que reúnem desde estudantes universitárias até trabalhadoras domésticas e mulheres indígenas. Não há uma porta-voz única. Há uma pluralidade de vozes que se articula em torno de pautas comuns.
Essa escolha não é apenas filosófica — é estratégica. Movimentos descentralizados são mais resilientes à repressão, mais adaptáveis a contextos locais e mais capazes de incorporar demandas diversas sem apagar diferenças.
Invisibilidade como forma de violência política
Apesar de seu papel central na mobilização social chilena, as lideranças femininas seguem sendo sistematicamente sub-representadas nas coberturas midiáticas e nos registros históricos. Quando o estallido social de outubro de 2019 é narrado, os nomes que aparecem com mais frequência são masculinos. Quando se fala das negociações constitucionais, são homens que ocupam o centro do enquadramento.
Essa invisibilização não é acidental. Ela reflete estruturas de poder que determinam quem é reconhecido como sujeito político legítimo. E combatê-la exige não apenas denúncia, mas a construção ativa de novas narrativas.
Organizações como a Fundación Decidimos, que trabalha com formação política de mulheres em territórios vulneráveis, têm investido em metodologias de documentação e memória que colocam as mulheres como protagonistas de suas próprias histórias. Gravações de depoimentos, publicações comunitárias e arquivos digitais participativos são ferramentas de resistência à amnésia histórica.
Ressonâncias no Brasil
Para o público brasileiro, essas experiências têm uma familiaridade perturbadora. No Brasil, mulheres negras e periféricas também são as principais organizadoras de redes de cuidado coletivo — e também são as que menos aparecem nas manchetes quando se fala em liderança política.
O movimento das mães de vítimas da violência policial, as organizações de mulheres em favelas que coordenaram a distribuição de cestas básicas durante a pandemia, as lideranças quilombolas que protegem território e comunidade simultaneamente — todas essas figuras compartilham com suas irmãs chilenas uma mesma lógica de ação: o cuidado como fundamento da política.
A diferença é que, no Chile, o estallido social criou uma janela de visibilidade que permitiu a essas lideranças ganharem reconhecimento institucional — ainda que parcial e disputado. No Brasil, essa janela ainda está sendo construída.
O que os movimentos brasileiros podem aprender
A experiência chilena oferece pelo menos três lições concretas para organizações e movimentos no Brasil.
Primeiro, a importância de formalizar o informal. Muitas das redes de cuidado que as mulheres constroem existem na informalidade — e isso as torna vulneráveis. Criar estruturas jurídicas, documentar processos e estabelecer protocolos de tomada de decisão não significa burocratizar o movimento: significa protegê-lo.
Segundo, a necessidade de formação política intencional. Organizações chilenas como a Escuela de Formación Política Feminista investem sistematicamente na capacitação de lideranças comunitárias, oferecendo ferramentas conceituais e práticas para que mulheres possam atuar com mais segurança em espaços institucionais.
Terceiro, o valor da aliança intergeracional. No Chile, mulheres que organizaram resistências durante a ditadura colaboram hoje com jovens ativistas criadas nas redes sociais. Essa troca de saberes — experiência histórica com agilidade digital — é uma das forças mais potentes dos movimentos femininos contemporâneos.
Mover comunidades é também um ato de cuidado
Na Mueve Chile, acreditamos que mobilizar comunidades não é apenas uma questão de estratégia política ou eficiência organizacional. É, fundamentalmente, um ato de cuidado — com as pessoas, com os territórios, com o futuro que queremos construir juntos.
As mulheres que estão na linha de frente da organização comunitária chilena entenderam isso antes de qualquer manual de ativismo. E é por isso que seus modelos de liderança não apenas resistem ao tempo — eles se multiplicam, cruzam fronteiras e inspiram novos movimentos em cada comunidade que encontram.
Reconhecê-las não é apenas um gesto de justiça histórica. É uma condição para que os movimentos sociais — no Chile, no Brasil e em toda a América Latina — possam continuar avançando.