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Existir em movimento: a luta de ativistas gordos chilenos pelo direito de habitar a cidade

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Existir em movimento: a luta de ativistas gordos chilenos pelo direito de habitar a cidade

Há uma pergunta que muitas pessoas jamais precisam fazer a si mesmas antes de sair de casa: meu corpo cabe aqui? Para uma parcela significativa da população chilena — e também brasileira —, essa questão é cotidiana, concreta e carregada de consequências. Cadeiras sem braços que comprimem, catracas que bloqueiam a passagem, bancos de ônibus projetados para uma silhueta que não é a sua, olhares que julgam antes mesmo de qualquer palavra ser dita. A cidade, afinal, não é neutra. Ela foi construída com um corpo em mente — e esse corpo raramente é gordo.

No Chile, um movimento crescente de ativistas gordos tem nomeado essa experiência com clareza política: não se trata de um problema individual de saúde ou de autoestima, mas de uma estrutura urbana excludente que precisa ser confrontada coletivamente. E é nesse confronto que a mobilidade urbana se converte em arena de disputa política.

A cidade como projeto de exclusão

Quando urbanistas, arquitetos e gestores públicos planejam espaços, raramente incluem corpos gordos em seus parâmetros de projeto. As medidas padrão de assentos em transporte coletivo, as larguras de catracas, a disposição de mobiliário urbano — tudo isso segue uma lógica de normatização corporal que invisibiliza uma parte expressiva da população.

No Chile, onde o sistema de transporte público das grandes cidades passou por reformas significativas nas últimas décadas, essa exclusão se manifesta de formas muito concretas. Relatos de pessoas que evitam o metrô de Santiago por não conseguir passar pelas catracas, que deixam de usar o Transantiago — atual Red Metropolitana de Movilidad — por não encontrar assentos confortáveis, ou que simplesmente deixam de circular por determinados bairros por anteciparem o constrangimento público, são recorrentes entre ativistas e pesquisadores que se debruçam sobre o tema.

Esse fenômeno tem um nome: gordofobia estrutural. E ele não opera apenas no nível das atitudes individuais, mas na própria materialidade do espaço construído.

Interseccionalidades que a luta não pode ignorar

O ativismo gordo no Chile — assim como em outros países da América Latina — não acontece em um vácuo. Ele se encontra, inevitavelmente, com outras formas de opressão que determinam quem tem acesso à mobilidade e em quais condições.

A classe social, por exemplo, é um fator determinante. Pessoas gordas de menor renda dependem do transporte público — justamente o espaço mais hostil a seus corpos — enquanto quem tem acesso a automóveis particulares pode, em certa medida, contornar alguns desses constrangimentos. A geografia urbana chilena, marcada por profundas desigualdades de distribuição espacial, aprofunda essa divisão: bairros periféricos com menor infraestrutura de mobilidade ativa, como ciclovias e calçadas adequadas, concentram populações mais vulnerabilizadas, incluindo pessoas gordas que enfrentam dupla desvantagem.

O gênero também atravessa essa luta de maneira inescapável. Mulheres gordas relatam experiências de assédio e humilhação no espaço público com uma frequência e uma intensidade que os homens gordos raramente descrevem da mesma forma. O corpo gordo feminino é alvo de uma vigilância específica, que combina gordofobia e misoginia em formas de violência que vão do comentário não solicitado à recusa de serviços.

E há, ainda, a dimensão da saúde — não no sentido moralizante com que costuma aparecer no debate público, mas como questão de acesso. Quando a gordofobia estrutural impede que pessoas gordas circulem livremente pela cidade, ela também dificulta o acesso a serviços de saúde, a empregos, a espaços de lazer e cultura. A exclusão da mobilidade é, portanto, exclusão de tudo o mais que a cidade oferece.

Ocupar como ato político

Diante desse quadro, o ativismo gordo chileno tem adotado uma estratégia que é, ao mesmo tempo, simples e profundamente subversiva: ocupar o espaço público de forma deliberada e visível.

Manifestações em praças e avenidas centrais de Santiago, intervenções urbanas que questionam os padrões de mobiliário público, campanhas nas redes sociais que documentam barreiras arquitetônicas — tudo isso compõe um repertório de ação coletiva que coloca o corpo gordo no centro da disputa pelo direito à cidade.

Essa lógica não é nova. Movimentos de pessoas com deficiência, feministas e antirracistas já demonstraram que a presença física em espaços que tentam excluí-la é, em si mesma, uma forma de contestação política. O que o ativismo gordo chileno faz é aplicar essa compreensão à sua própria experiência, recusando a privatização do constrangimento — a ideia de que o problema está no indivíduo e deve ser resolvido individualmente — e afirmando que a transformação necessária é coletiva e estrutural.

Demandas concretas para uma mobilidade mais justa

A dimensão simbólica da ocupação do espaço é fundamental, mas o movimento também articula demandas muito concretas junto a gestores públicos e empresas de transporte.

Entre as pautas mais recorrentes estão: a revisão dos padrões de dimensionamento de assentos e catracas no transporte público; a inclusão de critérios de diversidade corporal nos processos de licitação e projeto de infraestrutura urbana; a formação de agentes públicos para o atendimento respeitoso de pessoas gordas; e a produção de dados desagregados que permitam mensurar o impacto da gordofobia nas condições de mobilidade da população.

Essas demandas dialogam diretamente com os marcos legais de acessibilidade já existentes no Chile — e com suas lacunas. A Lei de Inclusión, que avançou em diversas dimensões da acessibilidade, ainda não incorpora de forma explícita a diversidade corporal como critério de projeto urbano. Preencher essa lacuna é um dos objetivos de longo prazo do movimento.

O que o Brasil pode aprender com essa mobilização

Para o público brasileiro, que acompanha de perto os debates sobre direito à cidade e mobilidade urbana, a experiência chilena oferece lições valiosas. O Brasil possui um dos maiores movimentos de ativismo gordo da América Latina, com organizações consolidadas e uma produção acadêmica crescente sobre o tema. Mas a articulação entre esse ativismo e as pautas de mobilidade urbana ainda é incipiente.

O que o Chile mostra é que essa conexão não é apenas possível — é necessária. Quando o corpo gordo deixa de ser tratado como problema de saúde individual e passa a ser reconhecido como sujeito político com direito à cidade, toda a conversa sobre mobilidade urbana se transforma. As perguntas que precisamos fazer deixam de ser apenas sobre eficiência de rotas e tempos de deslocamento, e passam a incluir: para quais corpos essa cidade foi projetada? E o que precisamos mudar para que todos os corpos possam se mover com liberdade e dignidade?

Mover-se é um direito. E afirmar esse direito para corpos historicamente excluídos é, talvez, uma das formas mais radicais de transformação social que uma cidade pode experimentar.


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